segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Candomblé

Fui convidado para assistir a inauguração de um centro de cultura ‘afro’ em minha cidade. Ali serão ensinados os vários elementos históricos e mitológicos associados ao Candomblé. Carreguei a máquina comigo na esperança de construir algumas imagens do evento, sem, contudo, ter a pretensão documental ou etnográfica. Há muito tempo eu não realizava reportagem fotográfica e não me obriguei a seguir nenhum caminho pré-estabelecido, apenas fotografar sem flash para não atrapalhar a concentração das pessoas. O local era pequeno e estava lotado de gente. O barracão foi encantado com o som dos batuques e o cantar das músicas africanas que anunciaram a chegada da Capoeira...

Grupo de capoeira minutos antes de entrar no barracão ( Nikon D70 )


As cores ali presentes, nas roupas, nas decorações das paredes e em outros lugares, marcavam a atmosfera do local, fato que me levou a fotografar também em cores. Até havia me esquecido o que era fotografar em cor...mas não foi nada difícil, tendo em vista o que estava presente no barracão...

Integrante do culto ( Nikon D70 )

Quando o mestre de cerimônias ( o “Tata Nkassumbirê ” ) tomava a palavra e proferia no dialeto de Angola, calava fundo na cabeça e nos corações dos espectadores mensagens de coragem, respeito e admiração frente ao valor e a importância dos costumes africanos...

Espectadores no barracão ( Nikon D70 )

Olhando as pessoas ali presentes, notando seus aspectos físicos e sociais (pelo menos aquilo que se pode notar exteriormente em roupas e estética corporal) estavam ali representantes das várias camadas da sociedade brasileira, da mistura étnica que caracteriza nosso povo...

Integrantes do Centro de Cultura Africana de Marília (Nikon D70)

A capoeira é um dos instrumentos do Candomblé. Mistura de dança, arte marcial e teatro, a capoeira defendia os terreiros atacados pelas "autoridades brasileiras" desde o século retrasado. No barracão, ela mostrou as suas várias faces...


Capoeiristas no Centro de Cultura Africana em Marília (Nikon D70)


Representação de entidades do Candomblé no Centro de Cultura em Marília (Nikon D70)

Nessa ocasião, tentei observar com respeito e atenção a inauguração do Centro de Cultura Africana de Marília. Tentando não atrapalhar, 'apaguei' o flash e tentei captar a iluminacão local, o 'clima' da ocasião, o rosto das pessoas, enfim, algumas faces do evento. Depois sentei e apreciei o 'espetáculo' brasileiro pensando em como seria bom se o Candomblé se popularizasse...

 
Observando a capoeira (Nikon D70)




terça-feira, 14 de setembro de 2010

Olhar o nada

Entre uma fotografia e outra, dentro de um passeio programado, algumas surpresas podem acontecer. À mercê das supresas da luz, da sorte e da sensibilidade, nos deparamos com coisas que nos obrigam a  fotografar. A câmera é retirada da bolsa, apontada para algum lugar. Rapidamente a fotografia aparece. Quase sempre a consequência é uma imagem feita do nada, de lugar nenhum, de nada significante, porém, que merece ser olhado...

Nuvem fotografada em 2005 com Leica e neopan


Trocando o céu pelo chão, nos caminhos, entre uma calçada e outra, até o lixo presente nas vias públicas, ruas, indicando a passagem das pessoas e seus rastros, denunciando a história, insignificante por ser tão comum, adquiri a dignidade do olhar através da contra-luz e de uma composição simples...

Calçada de Marília em imagem de 2006 (Leica e neopan)

Nos terrenos vagos, andando atrás de um melhor ângulo e enquadramento, outras imagens podem aparecer. Na fotografia de contra-luz a qualidade da imagem sempre é boa, pois transfigura tons, contornos e valores visuais. Tudo se transforma em silhuetas, sombras bem definidas, um brilho especial. A escala de cinzas tende para a média prateada com branco e preto. Conferindo dramaticidade às cenas mais cotidianas como uma simples fotografia de mato.

Terreno vago com mato alto em Marília em 2010 ( Nikon D 70 )

Certa vez fui a uma festa típica aqui de Marília na qual havia aqueles parques de diversão que alegram as pessoas nas cidades do interior. Carrinho de trombada, roda gigante etc.


'Japan Fest' em Marília em 2008, Leica e neopan

O execício de olhar o não notado na paisagem, extrair dali aquilo que somente você foi capaz de ver, nutrir o sonho de que aquilo só existe em uma fotografia, à maneira da composição escolhida, da luz medida e da cidade imaginada...

Outdoor em Marília, 2008, Leica e ilford

Penso que talvez o maior desafio da fotografia de paisagem urbana que gosto de praticar, isto é, aquela desvinculada da simples reportagem das fachadas ou da documentação da arquitetônica técnica, seja o de extrair boas imagens do nada e do insignificante urbanos. Sonhar que aquilo só existiu  naquele instante e continuará existindo apenas em sua fotografia. A cidade imaginária feitas dos pedacinhos, 'caquinhos' que 'recolho' dela.   


segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Trilhos de trem 2


Estação Ferroviária de Marília fotografada em setembro de 2010 com Nikon D-70


Visitei há poucos dias os arredores da Estação Ferroviária da minha cidade. O objetivo era fotografar o interior dela para montar uma série de fotos da ferrovia (atuais e antigas) e escrever algumas palavras a respeito. Porém, os altos níveis de degradação e de abandono que marcam o referido ambiente me impediram de realizar meu intento. Fui hostilizado e não fui além de fotografias mais gerais da plataforma de embarque. Há alguns anos atrás, quando essa situação começou, quando os trens de passageiro estavam parando de andar pelos trlihos aqui da cidade, fiz algumas fotos de alguns detalhes da Estação, da porta do banheiro ao lado do bar.


Fotografia feita com Canon e tri-X em 1999 na Estação Ferroviária

Nessa ocasião, consegui fotografar o interior dos banheiros da Estação, local que usei quando menino e que dividi certamente com milhares de pessoas que lá estiveram de passagem, à negócios, visitando a família, tentando a sorte no interior do Estado. Alí se aliviaram ou simplesmente pentearam os cabelos na frente do único espelho do recinto arrumando as roupas amassadas pela viagem.

Imagem do banheiro da Estação feita com Canon e tri-X em 1999

Há pouco tempo, quando os trens deixaram de passar por aqui, após as chuvas de fevereiro os trilhos eram cobertos por verdadeiros 'tapetes' de flores miudas do mato que crescia sobre eles. Amarelinhas e vermelhinas, as pequeninas flores davam um charme especial ao leito da antiga ferrovia.


Os trilhos de trem em Marília em fevereiro de 2005 (Leica e neopan)


A sala do chefe da Estação também habita a minha memória da infância. Sempre cheia de pessoas uniformizadas com a roupas da RFFSA (empresa federal com comprou a Cia Paulista de Estradas de Ferro nos anos 70), servia de local para o comando e organização da partida e da chegada dos trens.


Sala do Chefe da Estação feita com Canon e tri-X em 2000

Hoje eu não posso visitar a Estação e talvez ela, da maneira como eu a vi,  não exista mais.

sábado, 11 de setembro de 2010

Imaginário Fotográfico 2

Imagem feita há poucos dias em uma pista de cooper  de Marília com a Nikon D70

Andar pela cidade como um pedestre, por suas ruas e avenidas, dobrando esquinas, vencendo quarteirões, na velocidade dos passos, no tempo de um passeio, observando os detalhes do seu 'fluir', pode ser um ótimo exercício para o nosso olhar. Sem horário a cumprir, ou mesmo algum lugar para chegar, sentimos o urbano de outra forma. Uma cidade imaginária aparece. 


Imagem feita há poucos dias com uma D70

A cidade possui mais pedestres do que carros e eles são parte constitutiva de sua paisagem, compõe sua realidade plástica, econômica e histórica. Porém, caso estejamos em um automóvel, a presença dos andarilhos é pouco notada. Além das paradas nos sinaleiros ou das curvas das esquinas, nada podemos ver. Entretanto, não há condição mais adequada para alguém conhecer a sua cidade do aquela do pedestre.


Foto feita em 1999 com tri-X e Canon

De repente a cidade se mostra com feições inusitadas, como se o caos urbano fosse harmonizado em segundos no imaginário e as fotografias aparecem. Isso só é possível no caminhar. Os equilíbrios menos sensatos e as relações menos frequêntes se tornam possíveis em uma simples e despretensiosa fotografia.


 
Rua Campo Sales em 2000  (Canon e tri-X)

Aos domingos e feriados, a cidade é mais dos pedestres. Passear pelo centro velho de Marília nesses referidos dias é um convite a vivê-la através de seus silêncios e da sua despoluição visual e sonora. É como se houvesse uma cidade oculta que pode ser revelada em fotografias. Na principal e mais movimentada avenida de Marília, marcada por pneus, pessoas desfilam como em uma passarela.


Imagem feita em 2000 na Av. Sampaio Vidal, com Leica e tri-X

Tudo isso acontece em um passe de mágica e em frações de segundo e somente dentro de uma fotografia, de seu recorte, composição e interpretação da realidade. Uma rua como passarela privilegiada para pedestres, isso só acontece em uma singela fotografia...


Av. Sampaio Vidal em 1999, através de Canon e tri-X.

Caminhar como os andarilhos, imaginar uma cidade que não existe, fugir da realidade monótona e sem graça para tentar construir coisas dignas do olhar. Deixar o imaginário fluir e 'pedir' as fotografias...eis o desafio e o convite. Andar sem rumo em busca dos significados acultos da cidade. Como você não estará em um automóvel, poderá andar até na contra-mão.

Leica e tri-x em uma das vias de acesso à Marília



segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Trilhos de trem


Imagem dos trilhos de trem ladeando ruas de Marília, feita há poucos dias com uma Nikon D70



A cidade de Marília 'nasceu' como loteamentos de terra em torno de fazendas de café ladeadas por trilhos da Cia Paulista de Estradas de Ferro, fixados aqui em 1929. Desde então a cidade cresceu, se urbanizou, mudando inteiramente suas feições antigas, relacionadas ao ir e vir de populações e mercadorias pelos trilhos de trem.



Estação Ferroviária de Marília registrada em 1999 com uma Canon e tri-X

Há alguns anos, não existe mais trens de passageiros por aqui. Porém, a velha estação ferroviária resiste ao tempo, e ao descaso das autoridades, sem a preservação de sua arquitetura. Visitei a Estação Ferroviária várias vezes sentindo a nostalgia contida em seus bancos e relógio ( peças que já desapareceram de lá ).



Detalhe dos trilhos que cortam Marília registrado em 2005 com uma Leica e Ilford


Os trilhos da ferrovia ainda marcam a paisagem do centro de Marília cortando-a em duas cidades e servindo de abrigo para andarilhos. Outras obras arquitetônicas que fazem parte do complexo ferroviário que sustentou a economia daqui são os galpões nos quais eram estocados os produtos agrícolas a espera de transporte. Há alguns anos, alguns desses galpões tem sido demolidos e outros reformados. De qualquer forma, o conjunto dessas construções ainda marcam a paisagem de Marília ao lado de praças, avenidas etc.



Imagem de galpão da ferrovia feito em 1998 com Canon e plus-X



Em Marília, uma agência bancária foi alocada em um desses galpões reformados no qual foi preservada boa parte da fachada original. Em 1999, fotografei várias fachadas dessas construções imaginando a re-inserção delas na paisagem urbana mais atual.



Galpão fotografado em 1999 com Canon e tri-X. Aqui foi alocada uma agência bancária



Imagem feita em 1998 de um galpão abandonado, Zorki e tri-X

domingo, 5 de setembro de 2010

Imaginário fotográfico



Fotografia feita em Marília há poucos dias com uma D70 Nikon

Resolvi passear pelas ruas da cidade onde moro, munido de uma câmera como se fosse um caderno de anotações, registrando as minhas impressões sobre a arquitetura. Adotei o preto e branco por pensar que somente assim traduziria em fotos a cidade da forma como eu a "via" ou imaginava. Esse recurso foi uma espécie de fuga da realidade para encontrar uma Marília que somente existe no meus devaneios. Feita de luz e sombra, de contrastes de vários tipos, a "minha" Marília é simples, nostálgica, silenciosa, em preto e branco e, quase sempre, através de uma pequena Leica. Hoje, porém, tento encontrar essa cidade com uma câmera digital.